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Uma empresa chamada Babel
O
que acontece quando pessoas muito diferentes se unem em uma
mesma equipe para atingir um objetivo comum? A qualquer momento
surgem conflitos que, impulsionados por preconceitos e valores
conflitantes, podem acabar minando um projeto do qual, por
vezes, poderia depender o futuro da empresa. Juan Carlos Cubeiro,
fundador da empresa de coaching Eurotalent e professor da
Universidade de Deusto, da Universidade CEU de San Pablo e
da Esade, e Marta Romo, gerente da Eurotalent e professora
do CEU, discorrem sobre os desafios de gestão de equipes
com elementos heterogêneos em seu livro Jardim de Babel.
Na obra, os especialistas em liderança escolhem uma
equipe fictícia de nove pessoas bastante diferentes
e que têm como objetivo trabalhar juntas em um projeto
sobre o sistema educacional espanhol. Juan Carlos Cubeiro
conversou com o Universia-Knowledge@Wharton sobre os artifícios
a que teve de recorrer para que um grupo tão heterogêneo
pudesse funcionar a contento.
Universia-Knowledge@Wharton: O que se entende por
diversidade e que tipos de pessoas podemos encontrar dentro
da empresa? Qual delas merece menos atenção
e qual deve ser mais trabalhada?
Juan Carlos Cubeiro: Quando falamos de gestão
de diversidade, deveríamos na verdade destacar três
níveis distintos: a diversidade visível, perceptível
à vista (sexos diferentes, etnias, altura, capacidades
e incapacidades físicas, psíquicas ou sensoriais);
diversidade tangível, que se pode observar em um currículo
vitae (diferenças de idade, estudos, experiências,
idiomas, gostos etc.) e diversidade intangível (diferentes
modos de pensar, de sentir, de agir, de aprender). O paradoxo
consiste no fato de que tanto o visível quanto o invisível
podem se tornar vítimas de discriminação
(sexual, étnica, etária etc.) quando deveria
haver complementaridade no âmbito de uma mesma equipe,
isto é, a diversidade deveria ser gerida de forma integral.
Embora seja necessário pôr fim à discriminação,
a gestão da diversidade entendida como imposição
de cotas não é um fim em si mesmo. As organizações
mais avançadas cultivam a tolerância com base
no conhecimento profundo dos três níveis de diversidade
recorrendo, para isso, a ferramentas adequadas que permitem
conhecer o estilo de aprendizagem e o diversitipo (pontos
fortes e capacidade de melhora) de cada membro, contando-se
para isso com um “Mapa de diversidade” que nos
permite refletir sobre o que se passa e, em seguida, tomar
as decisões adequadas.
Uma equipe em desequilíbrio no que diz respeito a seus
membros — quais deles, por exemplo, estariam mais inclinados
à ação e quais ao pensamento, à
unicidade e à multiplicidade, quais seriam mais viscerais,
mais dados à emoção e ao intelecto —
não pode ser uma equipe com bom rendimento.
UK@W.: Na hora de escolher os membros da equipe,
são escolhidas nove pessoas, já que não
se pode ter um mesmo número de membros. Por que o grupo
é formado por cinco homens e quatro mulheres?
J.C.C.: Os membros da equipe não são
escolhidos em função do sexo, e sim de sua personalidade.
Cada um deles traz um perfil distinto para a equipe: há
três membros mais viscerais, três que são
mais emocionais e três mais intelectuais. Há
também três indivíduos extrovertidos,
três introvertidos e três que oscilam entre um
e outro.
Conforme disse anteriormente, a complementaridade não
se dá pelo que é visível (sexo, etnia,
capacidades e incapacidades), tampouco pelo que é tangível
(idade, estudo, experiência), mas pelo intangível,
pelas formas de pensar, de sentir, de agir, o que permite
o uso de ferramentas como o teste de estilos de aprendizagem
de David Kolb, ou o diversigrama, aplicação
corporativa baseado no Eneagrama (que estabelece nove tipos
básicos de personalidade). Trata-se de ferramentas
que não só permitem aos membros da equipe se
conhecerem a si mesmos (principal objetivo do Oráculo
de Delfos) como também saber qual a contribuição
de cada um para a equipe. Os diversitipos são “pacotes
de competências” através dos quais podemos
determinar os pontos fortes de um profissional, suas possibilidades
de melhora, de evolução, a forma como ele se
comunica, como lidera e como deve ser liderado etc.
UK@W.: Você poderia dar uma descrição
do perfil de cada pessoa escolhida e dizer a razão
da escolha?
J.C.C.: A equipe tem como objetivo — e para
isso foi constituída — analisar a situação
da educação na Espanha com o objetivo de propor
melhorias concretas. Ela está constituída da
seguinte forma:
• Elena Moral, 29 anos, professora de uma escola pública.
Foi eleita por suas contribuições à comunidade
de educadores. Dotada de autocontrole, disciplinada, procura
insistentemente a excelência. Tem dificuldade em confiar
nos outros, tende ao rigor e ao individualismo. Exige que
todos cumpram suas obrigações.
• Nuria Amor, 54 anos, professora de psicologia diferencial
da Faculdade de Educação. Escolhida por ser
especialista em diferenças entre os sexos. Destaca-se
por sua generosidade, empatia, otimismo, facilidade de relacionamento
com os demais. Tem dificuldade em conhecer a si mesma e, em
momentos de estresse, tende a ser manipuladora e nem sempre
cumpre sua palavra. Precisa que os outros a notem e agradeçam
seus esforços.
• Elisa Máscara, 39 anos. diretora geral de uma
multinacional. É competitiva, lutadora e simpática.
Valoriza o sucesso, comunica-se com clareza. Como se mede
pelo sucesso externo, preocupa-se mais com sua imagem do que
com sua autenticidade. Precisa de atividade constante e, ao
mesmo tempo, de descanso, de assumir sua identidade.
• Alicia Pálida, 41 anos. Socióloga e
diretora de cinema. Escolhida por ser especialista em temas
sociais. É pessoa muito sensível e emotiva,
muito criativa e atenta aos sentimentos alheios. De temperamento
forte, é por vezes egocêntrica e invejosa. Precisa
compartilhar com o mundo o que tem dentro de si.
• Gerardo Cabeça, 57 anos. Empresário
de novas tecnologias. Muito racional e inteligente, cataloga
conceitos; é tranqüilo, amável, expressa-se
com suavidade. Tem problemas por causa de seu isolamento.
Precisa de liberdade e de independência.
• Rodrigo Leal, 36 anos. Advogado, sócio de um
escritório. Escolhido por seu conhecimento de leis.
Pessoal leal e comprometida, é amistoso e estimula
a colaboração. Fica ansioso na hora de tomar
decisões, tem dúvidas. As coisas devem estar
muito claras. Além disso, necessita saber o que se
espera dele.
• Manuel Duro, 50 anos. Representante do governo no
projeto. Escolhido para ser líder da equipe. Destaca-se
por sua energia; é pessoa de ação; influente
pela clareza de idéias e por seu dinamismo. Tem dificuldade
em controlar suas emoções. Precisa gastar energia
em muitas atividades.
• Álvaro Paz, 67 anos. Foi ministro da Educação.
Destaca-se por sua experiência no mundo político.
É conciliador; transmite paz e harmonia. Minimiza sua
presença e é mais reativo do que pró-ativo,
a ponto de resvalar para a indolência. Não nutre
grandes expectativas; o fundamental para ele é que
não haja conflitos.
UK@W.: Que problemas podem surgir em uma equipe com
membros tão heterogêneos? Como são resolvidos
os problemas?
J.C.C.: Costumamos chamar de equipe a qualquer grupo
de seres humanos, a qualquer conjunto de pessoas. Contudo,
só se tem de fato uma equipe quando há sinergias,
um resultado maior do que a contribuição de
cada um isoladamente. Se um grupo não é uma
equipe, o que se tem é uma anit-sinergia (em casos
assim, é melhor estar só do que mal acompanhado).
Um grupo que não é uma equipe é um clã
(um manda e os demais obedecem, a comunicação
é hierárquica, a identidade rígida demais
e as relações, frias) ou um bando (sem líder
definido, em que a comunicação é esporádica,
ou que não se comunica de forma alguma, e onde a confiança
e o compromisso são frágeis). O “chefão”
Vito Corleone não tinha uma equipe; a tuna (grupo musical
de estudantes universitários que mantêm vivas
as tradições dos estudantes do século
13) não é uma equipe.
Para que um agrupamento humano seja uma equipe de verdade,
uma das condições imprescindíveis é
a diversidade. Uma equipe sem membros heterogêneos não
é uma equipe de fato. É essencial que haja personalidades
diferentes, complementares. Felizmente, dispomos de ferramentas
para analisar e mensurar o diversitipo de cada membro da equipe.
UK@W.: Se o trabalho for dividido, exigindo a criação
de grupos menores, como devem ser constituídas essas
mini-equipes? Devem ser homogêneas para reforçar
as habilidades e os conhecimentos comuns ou suficientemente
heterogêneas para que as carências de cada profissional
sejam devidamente complementadas?
J.C.C: O trabalho em equipe é, de certo modo,
fractal. As mini-equipes devem reproduzir as condições
das equipes maiores. A homogeneidade (em que os integrantes
são de mesmo sexo, de mesma etnia, grau de instrução,
faixa etária e experiências semelhantes e, principalmente,
de mesmos traços de personalidade) não ajuda
a equipe. Reforçar habilidades e conhecimentos não
contribui com nada de especial; a complementaridade, embora
mais difícil (requer discussão, debate, tomada
de decisão, certeza de execução do que
foi acordado) é o que, de fato, vale realmente a pena.
Com relação ao tamanho, obviamente uma equipe
de cinco pessoas é mais ágil do que uma de dez
(na verdade, a partir de nove pessoas as coisas se complicam
no que diz respeito à interação). Contudo,
na medida em que cada integrante contribui não só
com seus conhecimentos e habilidades, mas também com
sua atitude, seu modo de ser, convém incorporá-lo
à equipe.
UK@W.: Quais os riscos e os benefícios de
se criar uma equipe homogênea ou heterogênea?
J.C.C.: Na verdade, não se trata de contabilizar
os prós e os contras de cada opção. Uma
equipe de verdade exige diversidade, assim como liderança
(não há equipe sem líder e nem líder
sem equipe), visão compartilhada (ou melhor, missão,
visão e valores compartilhados), enfoque profissional
para análise de problemas e tomada de decisão
(por meio de processos abertos — para esclarecer as
diversas situações e gerar idéias —
e processos fechados — decidir e comunicar, executar),
bem como um nível adequado de confiança e compromisso,
aprendizagem contínua e análise do entorno.
Cinco de cada seis diretorias, por exemplo, são constituídas,
na verdade, por diretores individuais: cada executivo vê
a empresa a partir de sua função (finanças,
marketing, recursos humanos), deixando de contribuir para
o conjunto da empresa. Uma diretoria é um órgão
colegiado que revisa e formula a estratégia da empresa
como um todo.
UK@W.: Quais os erros mais comuns na hora de escolher
uma equipe? O que jamais se deve fazer?
J.C.C.: Os erros mais comuns na hora de formar uma
equipe se devem à falta de critério: as pessoas
são escolhidas por causa de seu conhecimento técnico,
e não por sua capacidade de colaborar, de estabelecer
limites e de cooperar com os demais. Essas características
são essenciais para a formação da equipe.
Em vez disso, montam-se equipes por cotas (de sexo, procedência
na empresa), ou, pior ainda, em vez de escolher as pessoas
por seus méritos (por suas aptidões, como condição
necessária, e por sua atitude ou comportamento, como
condição suficiente), a escolha é feita
por tempo de casa (“chegou a hora de fulano”),
nepotismo, conexões ou fobias.
Um dos problemas que dificultam a existência de equipes
autênticas é a falta de conhecimento de ferramentas
práticas de gestão da diversidade, que são
às vezes simplesmente desconhecidas, ou que se julga
não terem valor científico. Os estilos de aprendizagem
ou os diversitipos têm validade científica e
caráter preditivo. Improvisar a formação
de uma equipe é péssimo para o ambiente de trabalho
e para os resultados do negócio.
http://wharton.universia.net/index.cfm?fa=viewArticle&ID=1525
Publicado em: 28/05/2008
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