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Coaching e Gestão de Carreira
Há alguns dias atrás, ouvi alguém dizer
“...hoje em dia, as empresas não têm mais
problema em contratar pessoas mais velhas, ao contrário
de alguns anos atrás”. Achei interessante esse
comentário. De fato, temos visto, no mercado brasileiro,
ao longo dos últimos dez anos, uma crescente moderação
do preconceito com respeito à idade dos profissionais
contratados. Preconceito, na realidade, são duas palavras:
pré e conceito, ou seja, o conceito antecipado. A conclusão
antes da informação.
Não havendo informações factuais (conceito)
sobre uma determinada coisa, o ser humano as inventa (preconceito).
Como falta de informação é ignorância,
todo preconceito é fruto de alguma ignorância
localizada.
No caso do preconceito sobre a idade dos profissionais, a
ignorância consiste em não ter-se respostas para
perguntas como “qual é o valor de um profissional?”,
“qual é a relação entre valor e
idade?” e coisas parecidas.
Não sabendo responder, as empresas simplesmente adotavam
a solução “se for mais velho, não
serve”.
Imagino
que o desenvolvimento e sofisticação do mercado
de recursos humanos que ocorreu no Brasil nos últimos
quinze anos e a melhor formação dos profissionais
de RH tenham levado as empresas a entender melhor a relação
entre valor e idade e assim poder determinar a conveniência
de contratar ou não uma pessoa mais velha. Talvez não
seja nem estudado nem, sequer, consciente, mas tudo indica
que, de forma empírica, as empresas conseguiram descobrir
alguma lógica para tanto.
Determinar o valor de um profissional, de uma forma pragmática
não é só importante nos casos de contratações
de pessoas mais velhas.
É fundamental em qualquer momento da vida profissional
de uma pessoa, tanto para quem contrata como para quem é
contratado. E não só no ato da contratação,
mas, também, ao longo de toda a permanência da
pessoa na empresa e ao longo de sua carreira em geral.
O valor de um profissional é o que determina, além
de sua contratação, sua remuneração,
sua continuidade numa empresa, sua “promovibilidade”
e outros fatores. Do ponto de vista do profissional é
crucial entender como determinar seu valor para poder negociar
sua remuneração, saber se está sendo
remunerado adequadamente e poder afetar pró-ativamente
sua remuneração em geral.
Acredito e sempre ilustro nas minhas palestras sobre gestão
de carreira, que o valor de um profissional é determinado
pela seguinte equação:
Em palavras, o valor é determinado
pela relação entre a contribuição
que o profissional traz ou pode trazer à empresa no
presente, somada à contribuição
que poderá trazer no futuro se desenvolver seu potencial,
o todo dividido pela somatória da remuneração,
benefícios, custos de desenvolvimento/treinamento,
etc. que a empresa tem com o profissional.
Aqueles que lembram da aula de matemática sobre frações,
lembarram que a fórmula acima
Também pode ser escrita como:
o que é mais prático porque
divide o valor em dois termos discretos, um para representar
o valor atual e outro o valor futuro do profissional.
Consciente ou inconscientemente, é seguindo esta fórmula
que as empresas gerenciam algumas importantes decisões
sobre seus quadros e, é assim que os profissionais
devem gerenciar alguns aspectos de suas carreiras.
O
fator idade afeta a equação de valor de duas
formas. Primeiro, diminuindo o peso do termo de valor futuro.
Na medida em que o tempo passa e o futuro vai virando presente
e passado, o potencial vai sendo esgotado. O potencial pode
ser esgotado através de sua transmutação
em realizações e aprendizado ou simplesmente
sendo desperdiçado. No primeiro caso haverá
uma transferência de peso do termo de valor futuro para
o de valor presente que pode tanto aumentar quanto diminuir
o valor total, dependendo da eficiência do processo
de transferência. No segundo, haverá uma líquida
perda de valor total.
O segundo efeito da idade é bem mais perverso e consiste
no aumento paulatino do custo, inevitável no Brasil,
onde as empresas são obrigadas por lei a aumentar a
remuneração de seus funcionários todos
os anos pelo diabólico mecanismo do “dissídio”.
E como o dissídio é cumulativo, aumento no custo
atual implica automaticamente em aumento no custo futuro.
Novamente o tempo trabalha em direção à
diminuição do valor total.
Não sendo possível diminuir o custo e, nem mesmo,
mantê-lo constante, a única maneira de compensar
os efeitos do tempo e manter o valor, no mínimo, constante,
é aumentar a contribuição presente e
futura (potencial) através do aumento de conhecimento
e competência, e integrar a experiência para aumentar
a contribuição.
Uma das inúmeras conclusões disso tudo é
que, no mundo profissional, quem fica parado anda para trás.
Atingir um determinado patamar de capacidade de contribuir
e lá estacionar leva, inexoravelmente, a perder valor
gradual e continuamente. Sempre chega-se a um ponto em que
o valor do profissional que envelheceu mas não cresceu,
fica menor que o de um profissional mais novo. Não
é de se surpreender que aí a empresa dê
preferência a este último.
Já vi muitos profissionais manifestarem frustração
e inconformidade pelo fato de um colega mais novo e/ou recém
contratado ter uma remuneração igual ou até
superior. Acontece que nas empresas privadas competitivas
e modernas, idade e tempo de casa não são automaticamente
associados a aumento de valor, já que não implicam
necessariamente no aumento da contribuição atual
e/ou potencial. É dever de todo profissional zelar
pelo contínuo aumento de sua capacidade de contribuir,
no mínimo na medida suficiente para compensar o aumento
de custo e a perda de valor futuro. Quem não o fizer
será atropelado pela idade.
Esta é a explicação pela preferência
tão preponderante por profissionais mais novos que
observamos até alguns anos atrás.
Porém, como vimos no começo, de uns anos para
cá, essa preferência parece ter se tornado menos
gritante. Em alguns casos até foi invertida a situação
e passou-se a preferir profissionais de mais idade.
Como se explica isso?
Minha hipótese é que houve uma mudança
na valorização da experiência por causa
do aumento da complexidade nas atividades dos profissionais.
Em atividades de baixa complexidade a experiência, além
de um determinado ponto, não agrega capacidade de contribuição
e portanto valor. Para apertar um parafuso sempre igual, numa
peça sempre igual, com a ferramenta sempre igual que
passa pela esteira rolante de sempre à velocidade de
sempre, tanto faz ter-se um ano de experiência ou dez
vezes um ano de experiência.
Porém, o aumento da competição entre
empresas, decorrente inclusive da globalização,
resultou num substancial aumento da complexidade das atividades
dos profissionais dessas empresas. Agora são diversos
parafusos, que requerem ferramentas específicas para
apertar cada um em peças muito diferentes que chegam
por inúmeras esteiras e em velocidades variáveis.
Muito mais complexidade. Agora um ano a mais de experiência
têm valor porque pode fazer a diferença.
Mesmo sem aumento de competência e de conhecimento,
o valor de um profissional engajado numa atividade complexa
pode ser aumentado pela experiência ganha ao longo do
tempo, posto que esta seja integrada adequadamente ao seu
fazer. Por esta razão houve uma guinada na atitude
das empresas que agora estão dando mais valor à
experiência e contratando com maior facilidade profissionais
menos jovens.
Ponto para os mais velhos (mais experientes)!
Na próxima edição veremos de que forma
o profissional pode e deve gerenciar seu valor.
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