| |

O Fator R e o Fator I – 1ª. parte
Por Carlos Diz
Na minha atividade como Coach de executivos, não é
raro eu me deparar com profissionais profundamente decepcionados
e, pior, realmente surpresos, por terem sido preteridos numa
promoção, em favor de um colega.
Promoções fazem parte daquele grupo de coisas
da vida que, em certas ocasiões, parecem ser controladas
por um bêbado cego acometido de mal de Alzheimer, pelo
menos a julgar pela reação de quem não
foi escolhido. E, ainda que em certos casos possa ser assim,
isso não é verdade na maioria dos casos.
Se a decepção é perfeitamente compreensível,
o mesmo não pode ser dito da surpresa. Descartado o
bêbado cego desmemoriado, deve haver uma lógica
por trás da não promoção de alguém,
posto que os dois ou mais concorrentes tivessem a mesma qualificação.
Na minha experiência, existem dois grandes motivos que
permitem explicar este fenômeno: o fator R e o fator
I. Vamos analisar cada um.
O fato R como em Rejeição, é normalmente
o que surpreende mais. Dissimulado, mimeticamente inserido
no ambiente de trabalho do executivo, o fator R se cria ao
longo de anos, permeando a organização sem ser
percebido. Alimentado pelo próprio executivo através
de comportamentos seus, frequentemente inconscientes, este
fator fica só esperando a oportunidade para dar o bote
e voltar-se contra seu próprio criador. E a oportunidade
se apresenta no momento em que a promoção é
discutida entre os superiores dos concorrentes.
Para entender isso é importante entender como frequentemente
funciona o processo de escolha de quem vai ser promovido no
âmbito de uma organização profissional
moderna.
Vamos supor que, numa empresa, tenha vagado uma gerencia,
e existam, dentre os supervisores que reportam a essa gerencia,
dois profissionais com os conhecimentos, as competências
e a experiência necessários para preencher a
posição de gerente. O Diretor da área
precisa escolher quem vai ser nomeado, mas dificilmente o
fará sozinho. Tipicamente, a decisão será
debatida no âmbito da diretoria, tanto numa reunião
formal quanto, e mais comum, em conversas informais entre
os diretores.
Para o Diretor da área, na prática, tanto faz
qual dos dois supervisores ascende à gerência.
Talvez até tenha uma preferência pessoal por
um candidato, mas não suficiente para justificar um
posicionamento drástico de sua parte. Claro que, em
se tratando de sua área, o diretor pode “forçar
a barra” e tomar uma decisão unilateral a favor
do candidato preferido. Esta é sempre uma opção,
porém, para ser usada com moderação,
pois, é um cartucho escasso que não pode ser
queimado futilmente. Além disso, uma das considerações,
consciente ou inconsciente, do diretor será a de que
quanto mais consenso ele conseguir em torno do nome do escolhido,
mais apoio este terá dos demais diretores e diretorias
e, portanto, mais chances de sucesso.
Por outro lado, também considerará a importância
de minimizar o risco, caso o escolhido não tenha sucesso,
de ter que ouvir um ou mais diretores buzinando no seu ouvido
o fatídico “... ta vendo? Eu não disse
que era melhor não promover fulano?”. Ou seja,
mutatis mutandis, o diretor se preocupará em cobrir
o seu traseiro buscando uma escolha que conte com a maior
adesão possível dos colegas diretores. É
comum que os demais diretores não tenham uma preferência
clara, afinal não convivem diariamente com os candidatos
nem são especialistas da área funcional deles.
É precisamente nesse contexto que o fator R mostra
seu poder. Se a falta de uma preferência por parte dos
demais diretores impede uma postura “candidato A sim!”,
é perfeitamente plausível que haja, por parte
de um ou mais diretores, uma não-preferência
clara que leve à postura “candidato B não!”.
Como acontece com candidatos em eleições políticas,
o número de eleitores que pretendem votar contra é
tão importante quanto, se não mais que, o número
de eleitores que pretendem votar a favor.
Frente a uma situação de rejeição
de um dos candidatos, o diretor se deparará com a escolha
entre um candidato que provoca objeções e outro
que não provoca. “Peitar” os que rejeitam
é uma alternativa viável, mas, que implica num
custo político importante. A menos que o diretor tenha
uma forte preferência escorada em motivos pragmáticos
– digo forte, pois mesmo uma pequena preferência,
poderá ser derrubada pela rejeição –
o que já descartamos ao supor que os dois candidatos
possuem níveis qualificação equivalente,
o diretor deslizará confortavelmente em direção
à escolha do outro candidato. O fator R terá
feito mais uma vítima. O trágico é que
não há absolutamente nada que possa ser feito,
nesse ponto, para reverter a situação. De onde
vem a rejeição? Como explicar uma injustiça
dessas? Por que ela é, freqüentemente, uma surpresa
para o rejeitado? Por que só apareceu agora? O que
fazer a respeito?
A rejeição é a manifestação
visível da maneira como o "rejeitante" percebe
o rejeitado. Por sua vez, esta percepção é
derivada da experiência que o "rejeitante"
desenvolveu através da observação de
e das interações com o rejeitado ao longo do
tempo, às vezes muito tempo. O que molda essa experiência
são os comportamentos do rejeitado nas ocasiões
de observação e interação. Ou
seja, a rejeição é resultado direto de
comportamentos do rejeitado: o que disse ou não disse,
o que fez ou não fez ao longo do tempo. Uma percepção
não é, nem precisa ser verdade para ser certa.
Percepções são subjetivas por definição
e, assim sendo, são sempre certas para quem as tem.
São o resultado certo da interpretação,
ainda que errada, do que se observa, no caso, de comportamentos
da pessoa. Pode parecer paradoxal, mas, apesar de nenhuma
percepção ser exata, todas são certas.
A escritora Anaïs Nim disse “nós não
vemos as coisas como elas são, as vemos como nós
somos”. Ou seja, toda percepção é
relativa ao ponto de vista do observador, portanto, não
existe a percepção absolutamente exata. Em falta
desta, todas são certas quando formadas a partir do
ponto de vista do observador. É importante notar que
por não ser exata uma percepção nunca
pode ser justa. O cérebro humano não desenvolveu
a capacidade de formar opiniões para ser justo e sim
para se proteger. Ou seja, a injustiça de uma opinião
é sempre garantida, só que incomoda quando a
percepção parece ser injustamente desfavorável
e não quando injustamente favorável. O problema
não é a percepção, por si só,
e sim as conseqüências da percepção.
No fundo, o que uma pessoa pensa de mim não me afeta
diretamente. O que sim pode me afetar diretamente é
o que a opinião dela pode me causar. No caso, a rejeição
(percepção negativa) que causa a não
promoção.
A surpresa pode se dever a várias coisas. Primeiro,
a opinião que leva a rejeição nunca tinha
sido manifestada até o dia da não-promoção.
De fato, opiniões podem ser silenciosas, até
inconscientes, guardadas para si até o dia em que se
torna necessário pensar no que pensamos a respeito
de alguém, e aí são explicitadas. Às
vezes, apesar de consciente, a opinião é guardada
para ser explicitada na ocasião certa, como no momento
da discussão da promoção da pessoa. Por
isso “só apareceu agora”. Segundo, os comportamentos
que causaram a percepção são, em grande
parte, inconscientes e assim difíceis de serem monitorados
e avaliados por quem tem esses comportamentos. Terceiro, é
comum que executivos não se importem – por não
saber e/ou por realmente não se importar – com
as impressões que causam ao redor de si, especialmente
num círculo mais amplo que seus contatos diretos –
chefe, pares e subordinados – ao qual pertencem pares
do chefe, chefe do chefe, pares do chefe do chefe, etc.
Mas a surpresa é inescusável. Por várias
razões. Mesmo que nunca manifestadas claramente, opiniões
nunca são totalmente imperceptíveis. Na linguagem
não verbal das pessoas com as quais interagimos sempre
transparece, ainda que sutilmente, a opinião que têm
de nós. Para o olho atento, sempre há sinais
do impacto que se está causando. No caso – improvável
– de realmente não conseguirmos perceber ou decodificar
esses sinais, sempre podemos perguntar, buscar feedback de
forma pró-ativa para balizar o impacto que nossos comportamentos
causam ao nosso redor. Se percebemos o impacto negativo mas
não lhe damos valor, então a surpresa, além
de inescusável é bem merecida. Não há
desculpa para este tipo de descaso.
Infelizmente não há nada que possa ser feito
a respeito, certamente não na hora. A rejeição
é algo que se constrói ao longo do tempo e certamente
não poderá ser revertida num tempo menor que
o que demorou em construí-la. Para agravar, como uma
impressão negativa é mais favorável à
preservação de quem a tem, este instintivamente
tende a se apegar a ela com mais força, fazendo com
que desfazer uma impressão negativa seja mais difícil
e mais demorado que fazê-la. O executivo rejeitado tem
três opções. Iniciar um longo e árduo
caminho em direção à reversão
da rejeição que, já vimos, no mínimo
demorará e talvez nem tenha êxito, mas que poderia
levar a um resultado favorável numa futura oportunidade
de promoção.
Aceitar e conformar-se com o ocorrido e realinhar suas ambições
de crescimento profissional no âmbito da empresa.Mudar
de empresa e se esforçar, desde o começo, para
evitar cometer os mesmos erros comportamentais que levariam
a outra situação de rejeição.
A rejeição é um típico caso de
tragédia anunciada. Se o que pode ser feito para evitá-la,
quando ainda é tempo, não for feito, só
restará assistir ao seu desenrolar e arcar com as conseqüências.
Se não houvesse inúmeros argumentos a favor
de se esforçar para prevenir a rejeição,
sua irreversibilidade já constituiria um argumento
mais que suficiente.
Infelizmente, muitos executivos que investem na construção
de boas relações, continuam ignorando a importância
de investir, também, na não construção
de más relações.
Na próxima edição analisaremos o Fator
I.
|
|